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Saúde digital no Brasil: estamos prontos para a próxima onda de inovação?

Avanços, gargalos e o que ainda trava o sistema



Durante muito tempo, falar em saúde digital no Brasil soava como exercício de futurologia. Hoje, a tecnologia já está presente em consultórios, hospitais, unidades básicas e plataformas de gestão, influenciando decisões clínicas, fluxos de atendimento e a relação entre profissionais e pacientes. Ainda assim, a sensação é de que o país avança em camadas desiguais: enquanto algumas iniciativas amadurecem rapidamente, outras permanecem presas a limitações estruturais que vão muito além da tecnologia em si.


A Organização Mundial da Saúde define a saúde digital como o uso de tecnologias para ampliar o acesso, a qualidade e a eficiência dos sistemas de saúde. Na prática, porém, o conceito envolve uma transformação mais profunda. Não se trata apenas de digitalizar processos existentes, mas de repensar como o cuidado é organizado, como os dados circulam e como decisões são tomadas em um sistema cada vez mais complexo e pressionado por demandas crescentes.


No Brasil, esse debate ganhou contornos mais claros com a Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028, formulada pelo Ministério da Saúde. O documento reconhece que a digitalização é parte estrutural do futuro do Sistema Único de Saúde e propõe diretrizes que vão da governança de dados à qualificação profissional. Ao colocar interoperabilidade, inovação e engajamento do cidadão no centro da agenda, a estratégia sinaliza uma mudança de visão: tecnologia deixa de ser suporte e passa a ser elemento organizador do sistema.


Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Entre 2020 e 2025, quase oito milhões de atendimentos digitais foram realizados no país, segundo o Painel de Indicadores da Saúde Digital, desenvolvido pela associação Saúde Digital Brasil em parceria com a Serasa Experian. Apenas em 2025, mais de 3,1 milhões de atendimentos ocorreram por meios digitais, com predominância do uso de vídeo. O dado revela mais do que crescimento quantitativo. Indica que a telemedicina deixou de ocupar um espaço periférico e passou a integrar, de forma mais consistente, a rotina de serviços e usuários.


O avanço também é perceptível no ecossistema de inovação. O Brasil já registra centenas de softwares com finalidade diagnóstica ou terapêutica aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, muitos deles baseados em inteligência artificial. Esse movimento aponta para um amadurecimento do mercado de saúde digital, que começa a ir além da gestão administrativa e se aproxima do núcleo do cuidado clínico, oferecendo suporte à decisão médica, monitoramento remoto e análise preditiva.


Apesar disso, a pergunta sobre prontidão permanece incômoda. A próxima onda de inovação em saúde digital exige bases que ainda não estão plenamente consolidadas no país. Um dos principais entraves continua sendo a desigualdade de infraestrutura. Conectividade de qualidade, sistemas integrados e equipamentos adequados não estão distribuídos de forma homogênea no território nacional. Em muitas regiões, especialmente nas mais vulneráveis, a ausência dessas condições básicas limita justamente o potencial transformador das soluções digitais.


A formação dos profissionais é outro ponto sensível. Pesquisas do Comitê Gestor da Internet no Brasil mostram que, embora os estabelecimentos de saúde tenham ampliado o uso de tecnologias da informação, a capacitação específica dos profissionais para lidar com sistemas digitais, análise de dados e ferramentas avançadas ainda é insuficiente. O resultado é um descompasso conhecido: a tecnologia está disponível, mas seu uso estratégico permanece restrito. Sem domínio técnico e visão integrada, soluções digitais tendem a ser subutilizadas ou adotadas de forma fragmentada.


Essa fragmentação aparece com clareza quando o tema é interoperabilidade. A Rede Nacional de Dados em Saúde foi concebida para permitir a integração de informações clínicas, laboratoriais e administrativas em escala nacional, facilitando o compartilhamento seguro de dados entre diferentes níveis de atenção. A iniciativa representa um avanço relevante, mas sua implementação ainda enfrenta desafios técnicos e institucionais. Enquanto a integração não se consolida, o sistema corre o risco de reproduzir, em ambiente digital, os mesmos silos de informação que historicamente dificultam a coordenação do cuidado.


Ao mesmo tempo, o horizonte aponta para uma fase ainda mais exigente. A incorporação de inteligência artificial, aprendizado de máquina e análise avançada de dados amplia as possibilidades de personalização do cuidado, detecção precoce de riscos e acompanhamento contínuo de pacientes. Estudos indicam que a combinação entre telemedicina, dispositivos vestíveis e algoritmos inteligentes pode transformar o manejo de doenças crônicas e apoiar decisões clínicas com maior precisão.


Experiências brasileiras já mostram como esse potencial pode se materializar. Projetos de teleassistência na atenção primária demonstraram capacidade de ampliar o acesso em regiões com escassez de profissionais, reduzir deslocamentos desnecessários e fortalecer o vínculo entre usuários e equipes de saúde. Esses casos ajudam a desmontar uma ideia recorrente: inovação em saúde não depende apenas de tecnologias sofisticadas, mas de modelos bem desenhados, aderentes à realidade do sistema e às necessidades da população.


Diante desse cenário, o debate sobre saúde digital no Brasil precisa avançar para além do entusiasmo tecnológico. As questões centrais são estratégicas. Como garantir que a digitalização contribua para reduzir desigualdades, e não aprofundá-las? Como preparar profissionais para atuar em um ambiente cada vez mais orientado por dados? Como equilibrar interoperabilidade, proteção da informação e inovação em um sistema público de grande escala como o SUS?


As respostas a essas perguntas definirão se o país será apenas um consumidor de soluções importadas ou um protagonista na construção de modelos de saúde digital ajustados à sua realidade. O Brasil já deu passos importantes, mas o verdadeiro salto não virá apenas da adoção de novas ferramentas. Ele dependerá da capacidade de articular tecnologia, pessoas, processos e governança em um projeto consistente de transformação.

Nesse contexto, inovar deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser um meio para construir um sistema de saúde mais inteligente, mais acessível e, sobretudo, mais sustentável.



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