Saúde digital em dados: o que o Brasil começa a enxergar sobre si mesmo
- Marco Bego

- há 10 horas
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Com a pesquisa Nexus/CNI Saúde Digital 2025, o Brasil finalmente tem um retrato público, nacional e metodologicamente sólido sobre como o cidadão enxerga e usa a saúde digital. Pode não ser a primeira pesquisa sobre o tema, mas é a primeira com escala e profundidade comparáveis às de países que tratam dados como infraestrutura de decisão. O levantamento cobre 27 unidades da federação, com 2.013 entrevistas presenciais e margem de erro de dois pontos percentuais. É o tipo de base empírica que faltava para transformar o debate sobre transformação digital em algo mais que discurso.
O dado que mais chama atenção é o tamanho da expectativa social: 78% dos brasileiros afirmam ter interesse em usar serviços digitais de saúde, mas apenas 20% já o fizeram. É uma lacuna de quase 60 pontos entre desejo e experiência. Em política pública, isso define prioridade: a sociedade quer a transformação, mas o sistema ainda não entrega.
Por que esse tipo de relatório é estratégico
Pesquisas como essa cumprem uma função que poucos indicadores cobrem: medem a percepção social. Até agora, o país tinha números sobre infraestrutura (quantos hospitais usam prontuário eletrônico, quantos exames são digitalizados), mas não sobre como as pessoas se relacionam com a saúde digital. É exatamente esse ângulo que países maduros monitoram há décadas.
A Dinamarca, por exemplo, mede anualmente o uso e a confiança no seu portal Sundhed.dk, e isso orienta investimento público. O Reino Unido acompanha o uso real do aplicativo do NHS e cruza com dados de satisfação e confiança em dados pessoais. A Coreia do Sul relaciona a adesão a serviços digitais com indicadores de alfabetização digital e idade. O relatório Nexus traz essa perspectiva ao Brasil: mede percepção, uso, barreiras e confiança — as variáveis que realmente definem se a transformação digital é inclusiva ou só tecnológica.
O retrato que emerge
O estudo mostra um país dividido entre curiosidade e desconfiança. A saúde digital é desejada, mas ainda distante da rotina. Apenas 20% já usaram algum serviço digital de saúde, e os mais citados são aplicativos de agendamento (57%), teleconsultas (49%) e exames integrados digitalmente (33%). O uso de IA em diagnóstico aparece com 10%, o que é coerente com o estágio atual de adoção clínica. A boa notícia é que, entre os usuários, 81% avaliaram a experiência como positiva ou muito positiva. Ou seja: o obstáculo não é rejeição — é acesso e familiaridade.
As barreiras mais mencionadas são falta de confiança (35%), dificuldade de acesso à internet (23%) e desconhecimento sobre como usar o serviço (21%). São números que mostram onde estão os verdadeiros gargalos. O problema não é a tecnologia, é a distância entre capacidade de oferta e preparo do usuário. Enquanto isso, a adesão cresce com escolaridade e renda, mas o interesse permanece alto em todos os estratos. Mesmo entre quem nunca usou, o desejo de usar é majoritário.
Um dado relevante é o perfil etário: entre pessoas com 60 anos ou mais, só 16% usam algum serviço digital — menos de um terço da taxa observada entre 25 e 40 anos. Isso aponta para a urgência de inclusão digital sênior, com interfaces acessíveis e apoio assistido. O envelhecimento populacional não é exceção; é o centro da demanda.
Comparações que ajudam a enxergar
A OCDE, no relatório Health in the Digital Age (2024), mostrou que o principal obstáculo à digitalização da saúde em países de renda média é a “lacuna de confiança”: o cidadão até tem acesso, mas não entende como seus dados circulam ou quem é responsável pelo cuidado digital. A OMS, em sua Global Strategy on Digital Health 2024–2030, incluiu “adoção cidadã” como um dos quatro eixos de maturidade — ao lado de governança, infraestrutura e força de trabalho. O relatório Nexus é justamente um passo nessa dimensão: ele mede a disposição do cidadão e as barreiras para transformar essa disposição em uso.
Essas comparações também mostram a importância de integrar dados nacionais a parâmetros globais. Países que usam relatórios de percepção pública como ferramenta de gestão conseguem desenhar políticas mais estáveis e sustentáveis. O que a Nexus entregou é um ponto de partida para isso: evidência sólida sobre comportamento digital real, em vez de inferência.
Entre dados e decisão
O relatório tem valor estratégico porque cria base para política pública, mas também para gestão privada. Operadoras, hospitais e governos podem identificar onde a experiência digital quebra: se o problema é conectividade, usabilidade, privacidade ou falta de integração. É a diferença entre desenhar solução para o sistema e desenhar solução para o usuário. E esse é o recado mais importante do levantamento: tecnologia não é o fim, é o meio. O resultado depende da aderência humana.
O estudo também traz um dado que ajuda a desmistificar a polarização “presencial versus digital”. Sete em cada dez brasileiros ainda preferem consultas presenciais, mas isso não significa rejeição à saúde digital. Significa que o virtual ainda é visto como extensão, não substituição. Essa nuance é essencial para desenhar políticas híbridas e sustentáveis.
O papel de relatórios como esse
Relatórios como o da Nexus/CNI - Saúde Digital 2025 são muito mais do que pesquisa de opinião. Eles criam lastro para o debate público, dão parâmetros para investimento e ajudam a alinhar expectativa social e prioridade regulatória. Sem eles, a política digital vive de intuição. Com eles, o país pode medir progresso, corrigir rota e comparar-se com o mundo.
Parabenizo o Fausto Augusto, o Paulo Mól e o Emanuel Lacerda pela iniciativa dessa pesquisa que marca o início de uma nova fase da discussão sobre saúde digital no Brasil. Não é o primeiro estudo sobre o tema, mas é o primeiro com escala, método e profundidade que colocam o cidadão no centro da análise. Com dados como esses, o país começa a enxergar a si mesmo com mais clareza — e isso é o que transforma dado em política e política em resultado.
REFERÊNCIAS:
Nexus/CNI. Relatório Saúde Digital 2025 (setembro, 2.013 entrevistas presenciais).
OCDE. Health in the Digital Age (2024).
OMS. Global Strategy on Digital Health 2024–2030.
NHS England. NHS App Data Report (2024).
Danish eHealth Authority. Annual Digital Health Report (2023).












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