Como governos estão usando inovação para reduzir custos no sistema de saúde
- Inova na Real

- há 1 dia
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Eficiência sem perda de qualidade: mito ou realidade?

A pressão sobre os sistemas públicos de saúde é crescente e estrutural. O envelhecimento populacional, a incorporação constante de novas tecnologias e o aumento das doenças crônicas elevam a demanda e os custos em praticamente todos os países. A Organização Mundial da Saúde aponta que o gasto global em saúde ultrapassou 9 trilhões de dólares antes mesmo da pandemia, representando cerca de 10 por cento do PIB mundial. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a despesa total com saúde corresponde a aproximadamente 9,6 por cento do PIB, somando gastos públicos e privados. A pergunta que se impõe é direta: é possível reduzir custos sem comprometer qualidade e acesso?
Diversos governos têm apostado na inovação como resposta estratégica. No Brasil, a expansão da telessaúde é um dos exemplos mais concretos. O programa Telessaúde Brasil Redes, coordenado pelo Ministério da Saúde, conecta profissionais da atenção primária a especialistas por meio de teleconsultorias e tele-educação. Estudos do próprio ministério indicam que a teleconsultoria reduz encaminhamentos desnecessários para níveis mais complexos de atendimento, o que impacta diretamente os custos do sistema e o tempo de espera para o paciente. A pandemia acelerou esse processo e consolidou a telemedicina como ferramenta permanente, regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina e pelo Congresso Nacional.
A lógica econômica é simples, mas os efeitos são profundos. Cada encaminhamento evitado representa economia de transporte, exames complementares e consultas especializadas. Além disso, há ganho de resolutividade na atenção básica, o que fortalece o papel da Estratégia Saúde da Família, reconhecida internacionalmente pela Organização Mundial da Saúde como um dos pilares do Sistema Único de Saúde. A inovação, nesse caso, não substitui profissionais, mas amplia a capacidade de decisão clínica com apoio tecnológico.
Outro eixo relevante é a digitalização de processos administrativos. Sistemas eletrônicos de prontuário e prescrição reduzem erros, evitam exames duplicados e melhoram a rastreabilidade de medicamentos. O Ministério da Saúde vem investindo na Rede Nacional de Dados em Saúde, que busca integrar informações clínicas em nível nacional. A interoperabilidade ainda enfrenta obstáculos técnicos e regionais, mas a perspectiva é clara: dados integrados permitem melhor planejamento, monitoramento de indicadores e compras mais eficientes.
No campo das aquisições públicas, a inovação também tem papel central. A Organização Pan Americana da Saúde destaca que compras centralizadas e uso de plataformas eletrônicas aumentam transparência e poder de negociação. No Brasil, o uso de pregões eletrônicos e registros de preços para medicamentos e insumos hospitalares tem sido apontado pelo Tribunal de Contas da União como mecanismo de racionalização de gastos. Em paralelo, a política de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo, coordenada pelo Ministério da Saúde, busca internalizar a produção de medicamentos estratégicos no país, reduzindo dependência externa e vulnerabilidade cambial.
A incorporação de tecnologias em saúde passa por avaliação rigorosa no âmbito da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, a Conitec. O processo envolve análise de custo-efetividade, impacto orçamentário e evidências clínicas. Essa abordagem baseada em avaliação de tecnologia em saúde segue diretrizes internacionais e tem como objetivo equilibrar acesso à inovação com sustentabilidade financeira. O debate sobre novos medicamentos de alto custo, especialmente terapias gênicas e imunobiológicos, evidencia que eficiência não significa negar tecnologia, mas escolher com base em evidência robusta.
Experiências internacionais reforçam essa tendência. O National Health Service do Reino Unido utiliza avaliação econômica sistemática por meio do National Institute for Health and Care Excellence para decidir sobre a adoção de tratamentos. O modelo considera não apenas eficácia clínica, mas também custo por ano de vida ajustado por qualidade. Países que adotam esse tipo de análise conseguem priorizar intervenções com maior retorno em saúde para cada unidade de recurso investido.
A inteligência artificial começa a ser incorporada em sistemas públicos para apoiar gestão hospitalar, prever demanda e otimizar fluxos. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico destaca que o uso de algoritmos para previsão de internações e ocupação de leitos pode reduzir desperdícios e melhorar alocação de equipes. No entanto, a adoção de ferramentas automatizadas exige governança sólida, transparência nos critérios e proteção de dados sensíveis.
A prevenção também é um componente decisivo da equação financeira. Programas de vacinação, rastreamento de câncer e controle de hipertensão e diabetes geram economia de longo prazo ao evitar complicações e hospitalizações. A própria Organização Mundial da Saúde reforça que cada dólar investido em imunização gera múltiplos retornos econômicos ao reduzir internações e perdas de produtividade. Governos que investem em políticas preventivas estruturadas conseguem amortecer parte da pressão orçamentária associada ao tratamento de doenças avançadas.
Apesar dos avanços, a ideia de eficiência sem perda de qualidade ainda enfrenta ceticismo. Reduzir custos não pode ser sinônimo de restringir acesso ou precarizar serviços. A inovação só cumpre seu papel quando acompanhada de avaliação contínua de resultados e participação social. Transparência nos indicadores, auditorias independentes e controle social são essenciais para garantir que ganhos financeiros não comprometam desfechos clínicos.
O cenário futuro aponta para sistemas cada vez mais orientados por dados, com integração entre atenção primária, especializada e hospitalar. Tecnologias digitais, avaliação econômica rigorosa e fortalecimento da prevenção formam um tripé estratégico. Para o Brasil, que opera um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, o desafio é escalar boas práticas de forma equitativa, respeitando as desigualdades regionais.
Eficiência no setor público não é um conceito abstrato. Ela se traduz em consultas resolutivas, menos filas, compras mais inteligentes e decisões baseadas em evidências. A inovação, quando bem aplicada, não substitui o compromisso social do sistema de saúde, mas pode torná-lo mais sustentável. A questão central deixa de ser se é possível economizar e passa a ser como redesenhar processos para gerar mais valor em saúde com os recursos disponíveis.
REFERÊNCIAS:












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