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Brasil domina o ecossistema de “deep techs” na América Latina, mas ainda tropeça no investimento privado

Atualizado: 17 de nov. de 2025

Embora reúna cerca de 72% das startups latino-americanas de inovação científica, o Brasil enfrenta gargalos para transformar essa vantagem em negócios globais bem-sucedidos.




O Brasil desponta como o grande protagonista das chamadas “deep techs”, startups que se baseiam em tecnologia científica de vanguarda, na América Latina. Um estudo recente da Emerge em parceria com o ecossistema Cubo Itaú mostrou que das aproximadamente 1.316 empresas desse tipo na região, cerca de 952 estão no Brasil. Esse expressivo volume revela o tamanho do potencial nacional: biotecnologia, inteligência artificial, materiais avançados, áreas que se beneficiam tanto da ampla base científica quanto da biodiversidade e complexidade do mercado brasileiro.


Contudo, essa liderança numérica esbarra numa realidade desconfortável: o Brasil ainda é apenas o terceiro colocado em atração de capital privado entre os países latino-americanos para deep techs. O relatório indica que quase metade das empresas ainda não recebeu nenhum tipo de investimento, e apenas cerca de 7% captaram capital privado, sendo a maior parte dependente de financiamento público, principalmente por órgãos como a FAPESP.


Essa dicotomia, liderança em número de empresas versus fragilidade no financiamento, revela dois desafios estruturais. Primeiro, o mercado interno brasileiro, grande e relativamente autossuficiente, tende a fazer com que as iniciativas nasçam voltadas ao território nacional, reduzindo a pressão para escalar internacionalmente ou buscar investidores externos. Segundo, há falta de fundos especializados em deep tech, que compreendam os ciclos longos dessas empresas, o risco tecnológico elevado e a necessidade de escala internacional. O ecossistema ainda privilegia modelos de inovação mais “rápidos” ou tradicionais, e menos aqueles que exigem maior maturação científica ou técnica.


Há também um aspecto de vocação setorial que favorece o Brasil: as deep techs nacionais concentram-se em saúde e bem-estar, (37%), e agronegócio e alimentos (28%). Essa especialização tem lógica: o país possui tanto demanda social importante quanto know-how em agritech, bioeconomia e ciência aplicada. No entanto, áreas como energia e clima (7%) ou mobilidade e logística (2%) ainda são pouco exploradas, mesmo diante de um cenário latino-americano que privilegia a transição energética e a inovação para sustentabilidade.


Para que o Brasil converta seu “leadership position” em deep techs em impacto real, novos produtos, mercados internacionais, unicórnios tecnológicos, especialistas apontam algumas frentes decisivas: maior internacionalização, atração de investidores focados em tecnologia de longo prazo, fortalecimento de ecossistemas regionais de pesquisa e desenvolvimento que conectem universidades, startups e mercado. Também é crucial expandir a cultura de spin-offs acadêmicas e criar incentivos para que ideias científicas se tornem startups viáveis, garantindo não apenas quantidade, mas qualidade e escala global.


Em resumo: o Brasil já está no mapa da inovação científica na América Latina, talvez na parte de baixo dele, mas o desafio agora é subir ao topo. E para isso, não basta liderar em volume; será preciso liderar em conversão, investimento e impacto global. O ecossistema já está montado, cabe agora ao país dar o passo seguinte.



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