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Banco Master: quando a escolha se perde e ninguém parece se incomodar

O caso do Banco Master chama atenção não apenas pelo que foi decidido, mas pelo ambiente em que essa decisão existiu — antes e depois. Ele funciona como um espelho de um problema maior, menos visível e mais persistente: a escolha técnica passou a ocorrer em um ecossistema dominado por excesso de informação, disputas narrativas e ausência de hierarquia cognitiva.


Antes da decisão, dados existiam. Relatórios existiam. Alertas existiam. Mas também existiam ruído, interpretações interessadas, leituras parciais, pressões políticas e sinais contraditórios circulando em paralelo. Em vez de escassez informacional, havia saturação. E em ambientes assim, o problema não é decidir sem dados, é decidir sem hierarquia cognitiva.


Quando tudo parece relevante, nada é claramente prioritário. A técnica não desaparece, mas perde centralidade. Ela passa a competir com versões, enquadramentos e antecipações do que será aceitável no debate público depois. O campo do possível se estreita não pela análise, mas pela narrativa.


Nesse ambiente, a inovação também muda de papel. Em vez de ser consequência de evidência robusta e comparação criteriosa, ela passa a operar como atalho cognitivo. Inovação sem base científica clara deixa de organizar a escolha e passa a confundi-la. O novo assume valor por ser novo, não por ser melhor demonstrado.


O que se observa no mercado financeiro é o mesmo sintoma que adoece a gestão da saúde: a urgência simbólica atropelando o protocolo.


Em saúde, isso é particularmente sensível. Protocolos clínicos, evidência científica, avaliação de tecnologias e dados populacionais convivem com pressão judicial, medo reputacional e a busca constante por soluções “modernas”. O resultado não é falta de informação, mas dificuldade crescente de escolher com clareza. Decisões podem parecer avançadas e bem-intencionadas, mas ainda assim precisam de lastro científico suficiente para sustentar seus efeitos no tempo.


O mesmo ambiente que fragiliza o pré-decisão atua com força ainda maior depois que a escolha é formalizada.


No pós-decisão, o que se instala não é entendimento, mas disputa. Narrativas se multiplicam, cada uma se apropriando de um fragmento da realidade e elevando-o à condição de explicação total. Um detalhe técnico vira prova definitiva. Uma consequência lateral vira causa central. Uma opinião é elevada à condição de análise. A complexidade é comprimida até caber em versões simples o suficiente para circular.


O excesso de informação não esclarece. Ele embaralha.


Nesse cenário, acertos podem ser invalidados e erros podem ser legitimados pelo mesmo mecanismo. Não é preciso alterar fatos — basta enquadrá-los melhor. Uma decisão tecnicamente defensável pode parecer suspeita se não se encaixa no enredo dominante. Uma decisão frágil pode parecer adequada se for bem narrada, se diluir responsabilidades ou se se apoiar em autoridade simbólica.


O sistema deixa de distinguir com clareza entre qualidade técnica e qualidade narrativa.

Isso não é um problema moral, nem depende da boa ou má intenção dos atores. É um problema estrutural. Não existe hoje um lugar confiável onde escolhas complexas possam ser organizadas com base científica, critérios comparáveis e responsabilidade explícita. Cada ator fala a partir de interesses legítimos — regulatórios, jurídicos, midiáticos, políticos, clínicos. O sistema, como um todo, não fala.


Sem esse espaço, o pré e o pós-decisão se alimentam do mesmo vazio. Antes, alternativas são filtradas pela sua viabilidade narrativa. Depois, decisões são reinterpretadas sem referência clara aos critérios que as produziram. Narrativas moldam escolhas. Escolhas alimentam novas narrativas. O ciclo se fecha.


O caso Banco Master não é exceção nem anomalia. É apenas um exemplo visível de um ambiente onde a informação deixou de ser aliada da decisão e passou a ser um fator adicional de fragilidade, justamente porque não há orquestração suficiente para transformar volume em entendimento.


Talvez o ponto não seja esperar que esse ambiente se consolide sozinho, mas começar a construí-lo deliberadamente. Criar espaços onde escolhas possam ser examinadas com calma, base científica, critérios explícitos e responsabilidade compartilhada — mesmo quando isso exige desacelerar o debate e recusar versões fáceis.


Divulgar conhecimento, hoje, é criar espaços onde o excesso de informação volte a fazer sentido.


Enquanto isso se consolida, continuaremos decidindo.


Mas com dificuldade crescente de reconhecer, de forma compartilhada,

por que escolhemos o que escolhemos.


E na sua organização: como se decide quando a narrativa entra em conflito com a evidência?


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