Como os algoritmos transformam o eletrocardiograma em uma ferramenta de alta precisão
- Inova na Real

- há 7 horas
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Algoritmos de aprendizado de máquina ampliam a capacidade do eletrocardiograma ao identificar alterações que podem passar despercebidas na análise convencional
O eletrocardiograma (ECG) foi criado há mais de um século e continua sendo um dos exames mais acessíveis, de baixo custo e amplamente disponíveis nos serviços de saúde em todo o mundo.
Sua interpretação, porém, ainda depende em grande parte da análise visual do traçado e da experiência do profissional. Esse modelo está sujeito à variabilidade diagnóstica e pode limitar a identificação de alterações sutis.
A incorporação de redes neurais profundas e algoritmos de aprendizado de máquina ao ECG começa a mudar esse cenário. Em vez de apenas registrar a atividade elétrica do coração, o exame passa a fornecer dados que podem ser analisados em tempo real por sistemas computacionais.
Essa combinação cria uma primeira camada de triagem capaz de identificar alterações elétricas e estruturais antes pouco evidentes na avaliação convencional.
Em cenários de urgência e emergência, o intervalo entre a chegada do paciente e a definição da conduta pode ser determinante para a preservação do miocárdio.
Algoritmos integrados aos aparelhos de ECG e aos sistemas de prontuário eletrônico conseguem analisar o sinal elétrico logo após sua captação. Assim, a aplicação da inteligência artificial amplia o papel tradicional do ECG. Ou seja, um exame simples e de baixo custo passa a ser utilizado para identificar informações funcionais e estruturais que, até então, dependiam de exames complementares.
Um exemplo é a disfunção sistólica do ventrículo esquerdo, caracterizada por fração de ejeção igual ou inferior a 35%. Tradicionalmente identificada por meio do ecocardiograma, essa alteração passou a ser detectada também na triagem primária a partir do ECG de 12 derivações associado à inteligência artificial, com elevada acurácia.
Estudos populacionais demonstraram a relação custo-efetividade dessa estratégia em larga escala. A aplicação pode viabilizar o rastreamento precoce de insuficiência cardíaca assintomática, especialmente em populações idosas. O mesmo princípio pode ser aplicado a outras doenças cardiovasculares. Cardiomiopatia hipertrófica, estenose da válvula aórtica e canalopatias, como a síndrome do QT longo oculto, podem ser identificadas em estágios iniciais.
Nessas situações, o algoritmo analisa marcadores associados ao desarranjo dos miócitos e à fibrose precoce. A identificação desses padrões pode orientar o encaminhamento para exames complementares de imagem ou avaliação genética.
A utilização da inteligência artificial também ultrapassou os equipamentos hospitalares convencionais de 12 derivações.
Redes neurais convolucionais passaram a ser adaptadas para interpretar dados obtidos por dispositivos vestíveis, como smartwatches e monitores adesivos de derivação única. E, mesmo com um número menor de derivações, algoritmos desenvolvidos para esses dispositivos mantêm desempenho diagnóstico elevado na identificação de disfunção ventricular e arritmias cardíacas fora do ambiente ambulatorial.
Essa expansão aumenta a capacidade de monitoramento contínuo e cria novas possibilidades para a telecardiologia.
Uma unidade de saúde localizada em uma região remota, por exemplo, pode realizar um ECG básico e receber instantaneamente uma classificação de risco produzida pelo algoritmo. A equipe médica local pode utilizar essa informação para direcionar os casos críticos a centros de referência. Dessa forma, o diagnóstico especializado pode chegar a regiões que não dispõem da mesma estrutura dos grandes centros, sem exigir o deslocamento inicial do paciente.
A expansão do AI-ECG não elimina, contudo, os desafios técnicos e metodológicos. Um dos principais está relacionado à forma como os modelos de aprendizagem profunda chegam às suas conclusões. Muitos desses sistemas funcionam como uma "caixa-preta", dificultando a compreensão dos fatores que determinaram uma classificação. Por isso, ferramentas de explicabilidade, como o Grad-CAM, são utilizadas para destacar visualmente os trechos do traçado que contribuíram para o resultado apresentado pelo algoritmo.
Outro ponto é a necessidade de validação externa. Modelos desenvolvidos a partir de determinadas populações precisam ser avaliados em bases de dados multiétnicas para reduzir o risco de vieses associados às características da população utilizada no treinamento.
Essas limitações reforçam o papel da supervisão médica. A inteligência artificial não substitui o cardiologista. O profissional continua responsável por avaliar os resultados, validar os achados e integrar as probabilidades calculadas pelo sistema ao quadro clínico do paciente.
Seu papel, portanto, é ampliar a capacidade de análise. Ela combina velocidade, padronização e identificação de padrões que podem não ser perceptíveis na avaliação convencional e, assim, acrescenta uma nova camada ao processo diagnóstico.
O eletrocardiograma continua sendo o mesmo exame. O que muda é a capacidade de interpretar as informações que ele produz. Esse movimento coloca o ECG em uma nova posição dentro da assistência cardiovascular, como uma fonte de dados capaz de apoiar decisões clínicas desde a primeira avaliação do paciente.
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